feminilidade

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A minha noção dela vai e vem. Às vezes penso mesmo que ela some junto com a minha autoestima e autoconfiança. Pegam as três nas malas e desaparecem, e ando pela casa que é este meu templo da vida, a chamar por elas feita tola. Maior parte dessas vezes só choro a sua partida e ausência, acreditando que não voltam mais. Este último ano esqueci-me dos passos que já dei. Esqueci-me que tudo começou por baixo, por dentro, pelas entranhas. Perdi-me a renovar o telhado quando as paredes estavam com infiltrações. Ana, Ana…

Então, o corpo fez-me ver. Tirou-me coisas, deu-me doença e dor, e destapou-me assim os olhos.

Começou com uma bartolinite (inflamação da glândula vaginal de Bartolin – responsável pela lubrificação natural da vagina – logo aí devia ter entendido o meu potencial ser muito. E com tanto a bloquear, entupiu), passou a quisto que nem à primeira cirurgia resolveu. Voltou. Ana procurou soluções fisicas, exteriores, questionou, deixou andar e finalmente chegou o momento duma segunda cirurgia vaginal que resultou na remoção total da glândula de Bartolin. E foi neste momento, de dor intensa, repouso absoluto, destruição total da autoestima, que entendi: o corpo fez-me ver mais uma vez a minha falta de conexão com a minha feminilidade. Fez-se clique.

“Eu já devia saber tudo isto. Todo este caminho, os sinais, o trabalho, a atenção, o cuidado para comigo. O sagrado feminino… Como falhei tanto comigo mesma novamente? Porque estou a repetir padrões?”… ora bem, o sistema nervoso não funciona por mérito. Funciona por carga. Quando a carga passa o limite, ele colapsa, mesmo em pessoas fortes, conscientes e trabalhadas. E mais do que martizirar-me e questionar tudo, tenho de limpar o embaciado das lentes para poder observar. Há muito ruído a complicar tudo na nossa vida. Seja informação, produção, ego, consumismo… e nada disso interessa. Tal como disse às vozes da minha cabeça até adormecer, numa certa noite de esgotamento emocional: nada disto importa.

Viajei até ao meu sitio do coração, onde o mato se funde com a praia, e para meu espanto, calando a pressa, a comparação, o julgamento, o ódio, a guerra, vejo a sombra serena, a participar, simplesmente a cumprir o seu papel. Onde fui para me conectar na esperança de recuperar a minha feminilidade, só vejo que nunca a perdi. No silêncio, na quietude, no meu habitat natural, escuto…

Foto tirada na sessão de descobrimento das minhas asas selvagens. 2020. @theflorescer

Reconheço que desleixei a mulher selvagem que sou.

Reconheço que me medi pelas outras e outros.

Reconheço que senti estar sempre a falhar com tudo e todos.

Reconheço que me enchi de culpa sem merecer esse peso.

Reconheço que a ferida de abandono e crença de não ser suficiente está mais aberta do que nunca.

Reconheço que as minhas definições de bom, sucesso, feminino, beleza e valor, mudaram e se baralharam todas.

Reconheço que cheguei a um ponto perto da ruptura.

Mas é nas cinzas que as fénix renascem.

Então, Ana, não precisas de perceber tudo.

Não precisas de ser mais forte.

A vida de ninguém está ligada à tua felicidade.

O teu valor não está em competição.

Ele não depende de mais ninguém nem do passado de ninguém, nem do teu.

Tu és suficiente no silêncio, no descanso, no simples existir.

A tua feminilidade está aqui. Sempre esteve.

Tu és bela nas mais variadas fases da tua vida.

A tua missão é nutrir-te, sempre.

E esta lua nova de 18 de Janeiro, realçou a autoconfiança através da ação, convidando-me a honrar a minha capacidade e seus limites. Ela pediu para eu me aperceber onde me estava a projetar demais para o exterior enquanto comprometia de menos com o interior. Realçou o discernimento, obrigou-me a escolher o que realmente merece o meu tempo, energia e responsabilidade, e fez-me ver aquilo que não pode mais ser sustentado. Exige integridade, comprometimento e estruturas que suportem a vida real, não apenas versões idealizadas dela.

E não é que menstruei na lua cheia e ovulei na lua nova? No ciclo da Lua Vermelha, quando a fertilidade vai na direção contrária à expressão das energias de procriação da lua cheia, em direção ao desenvolvimento interior, à expressão da força criativa, ao autoconhecimento. O ciclo da energia do arquétipo da bruxa/feiticeira, um período em que revelamos a nossa força pessoal e podemos utilizar essa força para processos de cura e transformação interior. A natureza está sempre do meu lado e dentro de mim!

E junto com um pouco de sol, foi a receita perfeita para me ver ao espelho e conseguir sorrir de alívio e valorização. Com a yoni quase recuperada, a autoestima, confiança e feminilidade ainda não se calaram na tertúlia de conversa em dia. Sem medo, comprometo-me a ser a mulher selvagem que SEMPRE fui.

Até breve

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