Limites, Sossego e Doçura

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Resolvi pôr por escrito o que tenho vindo a constatar no meu interior (basicamente, na verdade, é assim que escrevo sempre… realizações dos entretantos e desabafos em partilhas do meu caminho). Este começou no dia de anos da minha amiga Bea…

Nesse dia não estava bem, tinha tido um dia pesado e não estava alinhada nem tranquila. Estava abatida, cansada e o meu ar de derrotada notava-se a léguas. A minha querida amiga Bea fazia anos e eu até tinha pedido esse dia de folga para festejar com ela de corpo presente, de alguma forma. Já não estava com ela há muito tempo. E vê lá que o meu grey mood não podia ter vindo em “pior” altura. Bem, constatei precisamente o contrário. Pensei em não ir para não ser má companhia, mas a minha amizade com a Bea é real e está cá para todos os momentos e disposições, não só para a borga. Decidi passar em casa dela um bocadinho. Conversamos, jantamos e abraçamos, mesmo sem grande bateria social, e para meu espanto, não só eu, como ela e outros amigos, estávamos todos assim… meio depressivos e um pouco derrotados pela vida. Era geral. E sabê-lo e senti-lo, serviu de acolhimento. Não me senti sozinha e pude respirar um pouco.

Estava sentada à mesa ao lado da minha amiga aniversariante, numa mesa cheia de amigos e amor. Reparei que, a certo ponto, nos encostámos as duas na cadeira, olhámos para o panorama à nossa frente em silêncio, e de seguida uma para a outra, e mencionamos o mesmo: o quão tranquilamente gratas estávamos com aquele momento bom de simplicidade, e sentimo-nos amadas de novo. Foi como que, mesmo que nada tivesse mudado, em consciência voltamos um bocadinho a nós, e o copo da força tivesse enchido ligeiramente e o resultado foi um sorriso de alivio. Ainda bem que fui.

Entretanto, já tivemos um debriefing desse dia, numa tarde em que, a meio do trabalho dela a partir de casa, fizemos uma pausa para beber chá, defumar as nossas almas e reconectar. Foi maravilhoso. Todas as partilhas e comprovação dos nossos pensamentos, sentimentos e acontecimentos dos últimos tempos sobre limites e sossego, numa bolha de doçura que me aqueceu o coração.

Estações

Se há coisa que me tenho apercebido como sendo normal, é meia volta andarmos drenados, desgastados e simplesmente sem grande coisa para dar. Não é confortável, é triste e custa, mas é normal. Vamos entender duas coisas: uma é que nós não somos desenhados para funcionar e viver ao mesmo ritmo o ano todo, nem a vida toda. A outra é que, se consumimos e produzimos em massa por obrigação mais do que criamos e descansamos, vamos acabar assim. Não há humano que aguente e não adoeça, mais tarde ou mais cedo.

Vou dar o exemplo de um post que por acaso é sobre a minha profissão, mas aplica-se a tantas outras:

Estamos demasiado habituados a produzir, produzir, produzir e em constante estado de alerta e a levar com imensa informação duma só vez. Quando devíamos produzir, descansar, criar, fluir.

Falando das redes sociais, por exemplo, não querendo alongar-me muito neste tema porque acho que já todos percebemos o quão tóxico pode ser. E para mim é. Era. Apago a conta do Instagram e “desapareço do mapa” com alguma frequência. No início, os meus amigos achavam estranho e preocupante e vinham sempre perguntar-me se estava tudo bem. Hoje em dia, já nem questionam… sabem que a Paulinha precisa de uma pausa. E preciso. Várias vezes. Uma pausa do sistema, da quantidade de informação que, por muito que tente, nem sempre consigo filtrar, e sinceramente, da merda que vejo e que sem querer, consumo e me penetra no cérebro. Ficava triste, ansiosa, perturbada, esgotada. Não tinha vontade de voltar mas ao mesmo tempo tinha, para saber das minhas pessoas com mais facilidade, eventos e algumas coisas que me inspiram. Tomei a decisão de voltar novamente, mas nos meus próprios termos e no meu próprio tempo. Com limites, consciência e calma. Dividi as contas e perfis em essenciais/inspiradores, em neutros e em tóxicos. Sendo que os primeiros pus como favoritos (e não sabia que podiamos colocar o nosso feed apenas com favoritos), os segundos sendo contas que não me fazem nem bem nem mal, mas não há necessidade de cortar, e os terceiros cortar ou silenciar/restringir. Além disso, definir um horário de descanso em que não recebo notificações nenhumas, termino sessão depois da minha visita à app, priorizo contacto com as minhas pessoas através de chamada ou mensagem por whatsapp, evito grupos desnecessários, e entro sempre com um objectivo e não por hábito e dormência. Muito menos mal acordo. Assim, sou eu a líder, não o algoritmo.

Como disse a Lisa (artista com trabalho sustentável magnífico, que conheci através duma associação com que trabalhamos. Visita o seu trabalho em @lizzyartwork e @rhope_corals):

Além disso, temos fases como já falei aqui várias vezes. Tal como a natureza… as fases da lua, o ciclo menstrual e as estações do ano. Temos de viver momentos de recolha, momentos de pausa, descanso, abrigo, modo poupança, baixa energia e entrega, e maior recebimento, até em auto-regulação. Devemos respeitar ou então ressentimos, ou vamos tão abaixo que nem compreendemos o que raio se está a passar na nossa vida. Comemos bem, fazemos exercício regularmente, vida social, etc, etc, etc… mas nem sempre funciona tudo às mil maravilhas e além disso, meus amigos, as coisas mudam. O que antes me dava alento ou servia de combustível, já não faz esse efeito ou perdeu o seu papel. O que antes era fixe, agora é uma consumição. O que antes era habitual de mim para os outros, pode já não ser e temos de transmitir e reeducar ou sair. A vida é assim mesmo. E não resistas nem te esforces demasiado ou forces o que já não tem espaço para funcionar no teu ser e no teu quotidiano. Deixa ir, faz escolhas e sossega. Vais chegar a esse ponto no matter what, nem que seja por cansaço. Tal como estávamos todos em casa da Bea. Culpamos o trabalho mas não é só isso. Também é mas não só.

Além disso, estamos no inverno e quase nem nos preparamos para a sua chegada. Menos horas de luz, frio, chuva, vento, cinzento…assim de repente. São alturas depressivas para maior parte de nós. Mas porquê? Porque não conseguimos lidar nada bem com algo tão natural como uma estação sazonal? Há que entender também o que estamos a fazer de errado e a contribuir para piorar o cenário.

@wildlygeorgia

Do you struggle every time winter comes around? Seasonal depression, fatigue, sleep issues and getting sick all the time are too common…and so we dread winter every year.  Go to the link in my bio to join me this Sunday for an exclusive live workshop to learn about how to deeply support your mind and body through winter! (It will be recorded and sent to you if you can’t join live!)

♬ Weary Soul – Melodia Simples & Celestial Voices & Celestial Melodies & Dy Kamylle

Eis então o que pode estar realmente a fazer-nos sentir mal, principalmente no inverno e tempos mais escuros:

  • Excesso de luz artificial, que interfere na produção de melatonina, no ritmo circadiano e no ciclo de reparação do nosso corpo
  • Recusarmo-nos a desacelerar quando na verdade, o inverno é para recuperação, não para a correria e pressa. Forçar o corpo a lidar com o stress, esgota as nossas glândulas adrenais e enfraquece o sistema imunitário
  • Comer alimentos fora da época como smothies gelados ou saladas cruas que arrefecem o corpo e retardam a digestão. Devemos preferir ensopados, alimentos cozinhados e ervas que aquecem o corpo
  • Passarmos meses sem nos conectarmos com o solo descalç@s e impedirmos assim o contacto com os iões negativos da terra, que acalmam o sistema nervoso e reduzem a inflamação (em tempos escrevi um artigos sobre o earthing/grounding aqui no blog mas foi um dos conteúdos que se perdeu. Se não chegaste a ler e não sabes o que é, procura por essa informação ou escreve-me e eu explico-te)
  • Não darmos suporte às nossas mitocôndrias (centrais de energia da célula, responsáveis por produzir a energia de que as nossas células precisam para funcionar) ou às vias de desintoxicação. Menos luz solar e menos movimento significa produção de energia mais lenta e acumulo de toxinas
  • Passarmos muito tempo em ambientes fechados a respirar ar viciado e tóxico como ares condicionados onde a qualidade do ar costuma ser má, aumentando assim a inflamação e dificuldade de concentração. Devemos abrir as janelas e sair ao ar livre sempre que possível
  • Aquecimento! Embora saiba muito bem, numa constante, enfraquece a nossa tolerância ao frio e a flexibilidade metabólica. Uma pequena exposição ao frio (não precisas de ir tomar banhos gelados ao mar em pleno inverno como eu! Mas aconselho. Sairás revigorado) ajuda a fortalecer a circulação e energia.
@wildlygeorgia

Some tips to help nourish your body and mind through the darker months and visit the link in my bio for supportive supplements: 🥩 Eat seasonally: meaty stews, slow cooked meats, root veggies, apples, animal fats, and warming spices. 🌞 Honour the light: use red, amber or candlelight after sunset to protect your circadian rhythm. Melatonin is essential to get through the darker month as it can bind to the same receptor sites as vitamin D! 📱 Spend less time on screens and more time with the real world – sunlight, trees, connection, creativity, alone time. 🌲 Get outside daily: walk in nature, ground barefoot and catch the sunrise and sunset and sun in general, whenever you can. Even if it’s cloudy go outside! 💦 Stay hydrated: filter and add minerals into your water. ❄️ Feel the cold sometimes too as it helps to turn on our winter programs! The earth is slowing down and we are also meant to as well. What is this season asking you to release? 🍁

♬ snowfall – Øneheart & reidenshi

Limites

Numa outra nota, mas que segue todo este raciocínio, são os limites, ou falta deles, que estabelecemos na nossa vida.

Colocar limites, mesmo com a família, pelo nosso bem estar, para não drenarmos tanto a nossa energia, não é abandonar. E isto é para mim! Tenho tanto de me inteirar disto duma vez por todas. A culpa invade-me e sinto uma pressão enorme para estar sempre presente e me manter perto para o que toda a gente precise, estar atenta, amar o máximo que posso e mostrá-lo para que nunca ninguém sinta o contrário. Esse pensamento assombra-me. Imaginar alguém a sentir-se sozinho e abandonado. Eu sei o que é, e não quero que ninguém sinta o mesmo. Corrói-me. Mas no fundo, estou a proteger o quê ao desproteger-me e negligenciar-me a mim?

Tenho de aprender a ser mais como o meu namorado. Ele sim, é livre desta pressão e prisão, sem remorso. É do feitio dele e a verdade é que já ninguém lhe cobra, e se cobrar, azar. Porque se alguém vier exigir-te a seres mais, a estares mais, a falares mais, a ajudares mais, das duas uma: ou sentem a tua falta e aí só tens de explicar que não consegues dar mais e o que dás vai ter de bastar; ou querem-te para descarregar ou resolveres os seus problemas por falta de habilidade ou vontade de querer lidar eles próprios. Mas duma forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, deverão perceber que cada um tem o seu processo, e às vezes não devemos mesmo interferir e devemos sim dar um passo atrás, priorizar a nossa sanidade e integridade ao afastar-nos do que nos drena. Porque no final de contas, teres o síndrome da salvadora, como eu tenho, ajuda toda a gente, menos a ti… Porque pode até dar-te a pequena satisfação de teres sido útil e se calhar evitado esta dresgraça, mas impediste e travaste a oportunidade do outro de se salvar a ele próprio e aprender com isso, e muito provavelmente acabas drenad@ e esgotad@ e ninguém valorizou o suficiente para isso ter valido a pena. Confia, eu sei do que falo.

Os moods depressivos e drenados que sentimos são também sintomas da matrix. Isso é óbvio para quem está atento e o sabe no seu core. Sinais de que queremos, mas ainda não saímos dela. Estamos a aperceber-nos de coisas, e de que o momento de respirar tem de chegar, mas sabemos que ainda temos de aguentar. A todos os que me possam estar a ler: vamos conseguir. É mais um dia de carneiros, é. Mas também é mais um dia de luta e aprendizagem rumo ao nosso objectivo. Segue com calma.

Sossego

Em conclusão, desabafo-te sobre o quão cansada estou da minha mentalidade cheia de coisas que tenho de ser e fazer antes que o tempo se esgote, de modo a fazer valer a minha existência, e não me arrepender de ter deixado tanto por viver aquando a minha morte. Mas esta sensação de que vou morrer cedo e não vou ter tempo para tudo, faz-me mal. Tenho de me acalmar, porque não estou atrasada em nada… quanto muito, estou a fazer perder presença e consciência das coisas de agora, com tanta pressa… e na verdade, é só medo. Sei que não estou onde quero estar mas estou no caminho, e para já, só me quero abastecer do sossego e da doçura que vem com ele.

Falamos em cura para tudo. Mas viver em verdade e simplicidade com sazonalidade e respeito por tudo e todos, é o melhor remédio. A medicina é mais para dentro, e numa sinfonia harmoniosa com tudo o que te chama mas que não te prende a nada.

Percebi então, que é disto que precisamos neste momento: abrandar, limitar, recolher, tornar tudo consciente e presente e amar simplesmente. Sem dever ou provar nada a ninguém. Respira fundo com todo o teu corpo.

Até breve

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